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Pristina.org // Publicidade // A campanha de otimismo da Meta Ai

O novo anúncio do Meta AI quer que você seja otimista, mas a trilha sonora prevê o fim do mundo

Muitas vezes, a publicidade consegue funcionar melhor quando explora a justaposição. Você pega uma ansiedade cultural generalizada, inverte a lógica por trás de tudo e posiciona seu produto como o remédio definitivo que vai resolver todos os seus problemas. E, acredito que foi isso que o pessoal do Meta resolveu fazer, promovendo o otimismo na era da inteligência artificial com o Meta Ai.

O vídeo divulgando o futuro de acordo com o Meta Ai começa em preto e branco. Um close-up de um olhar revela uma série de notícias e manchetes de jornais falando sobre como a inteligência artificial vai roubar seu emprego, provocar isolamento social e levar a humanidade a uma nova crise existencial.

“Algumas pessoas querem fazer você acreditar que a inteligência artificial nos deixará menos conectados. Que ela nos deixará para trás”, diz a narração em um tom acolhedor que assegura a todos que nada de ruim vai acontecer. “Não poderíamos discordar mais.”

Nesse momento, o vídeo muda de cor e uma sequência de cenas esperançosas toma conta da tela. Uma casa dança no topo de um prédio sob um arco-íris, jovens pulam em um lago banhado de sol, uma criança corre em um campo… Todas aquelas imagens clichê que você já viu uma centena de vezes em anúncios de seguro de saúde.

E a narração continua. “Chamem-nos de otimistas. Chamem-nos de sonhadores. Chamem-nos do que diabos quiserem. Mas estamos apostando nas pessoas, e gostamos dessas chances. O futuro é para todos.” Tudo vai dar certo, não existe nenhum problema aqui.

Esse comercial é uma apresentação bem elaborada, cheia de clichês e conceitos fáceis de entender. Além disso, é bem conveniente para uma empresa como a Meta, um gigante da tecnologia que investiu bilhões de dólares no Meta AI, fazer um comercial como esse com a finalidade de provar que tudo que eles estão fazendo vai transformar a sociedade para o melhor.

Estava conversando com alguns amigos sobre essa campanha na semana passada quando li pela primeira vez que o Meta estava com esses planos. E, acredito que, por isso mesmo, acabei prestando mais atenção do que deveria nesse comercial. Foi assim que eu percebi a sua trilha sonora.

A música por trás de toda essa onda de esperança digital corporativa vem na voz do David Bowie e essa música é “Five Years”, primeira faixa do disco The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars de 1972.

Muitas vezes, a publicidade consegue funcionar melhor quando explora a justaposição. Você pega uma ansiedade cultural generalizada, inverte a lógica por trás de tudo e posiciona seu produto como o remédio definitivo que vai resolver todos os seus problemas. E, acredito que foi isso que o pessoal do Meta resolveu fazer, promovendo o otimismo na era da inteligência artificial com o Meta Ai.

Como fã do David Bowie e da música, eu percebi na hora que tinha algo errado por aí. E, se você não conhece a música e presta atenção apenas no refrão usado no comercial, a canção em si soa celebratória e bem grandiosa. Você vai escutar “people” várias vezes e isso encaixa bem na premissa otimista do Meta Ai. Mas, se você realmente prestar atenção na letra da música, a narrativa de todo o comercial muda de direção para algo muito mais sombrio.

Digo isso porque “Five Years” não fala sobre conexões humanas. Essa música é uma balada quase apocalíptica sobre uma sociedade que descobre que o planeta Terra será destruído em cinco anos em um evento de extinção em massa. É sério isso.

David Bowie começa a música no ponto de vista de uma criança que aprende sobre o que está para acontecer vendo um jornal na televisão. A letra da música menciona explicitamente que, na minha tradução livre, “tínhamos cinco anos para chorar”, pois a “Terra estava realmente morrendo”.

Não sei quem escolheu a trilha sonora para esse comercial de otimismo do Meta Ai, mas usar uma canção com uma temática apocalíptica para garantir aos usuários e consumidores que o Meta Ai não vai destruir a sociedade é uma falha de julgamento mais do que bizarra. E eu não consigo entender como isso pode ter acontecido de verdade.

Acredito que possa ser uma mistura de ignorância com arrogância. E digo isso porque essa contradição declarada parece ter passado despercebida pelos líderes da Meta, incluindo o CEO Mark Zuckerberg. No seu perfil no Facebook, Zuckerberg escreveu sobre dar às pessoas o poder de moldar seu mundo e garantir que os benefícios da tecnologia sejam distribuídos a todos. Dessa forma, eu acredito que ele nunca deve ter escutado essa música do David Bowie antes.

Muitas vezes, a publicidade consegue funcionar melhor quando explora a justaposição. Você pega uma ansiedade cultural generalizada, inverte a lógica por trás de tudo e posiciona seu produto como o remédio definitivo que vai resolver todos os seus problemas. E, acredito que foi isso que o pessoal do Meta resolveu fazer, promovendo o otimismo na era da inteligência artificial com o Meta Ai.

Esse deslize musical, esse vacilo criativo, permite confirmar uma tendência que eu vejo bastante quando se trata de líderes e inovadores do mundo de tecnologia. Eles estão completamente desconectados das obras que eles usam como referência nos seus trabalhos.

Isso aconteceu com o Meta e o livro “Ready Player One”. A OpenAI já fez isso quando referenciou o filme “Her” sem compreender como o filme apresenta um alerta sobre a substituição de relacionamentos humanos por companheiros sintéticos. A Palantir, empresa que desenvolve software de vigilância militar com inteligência artificial, foi batizada com o nome de uma das pedras que existem no livro Senhor dos Anéis para espionar e corromper as pessoas.

Muitas vezes, a publicidade consegue funcionar melhor quando explora a justaposição. Você pega uma ansiedade cultural generalizada, inverte a lógica por trás de tudo e posiciona seu produto como o remédio definitivo que vai resolver todos os seus problemas. E, acredito que foi isso que o pessoal do Meta resolveu fazer, promovendo o otimismo na era da inteligência artificial com o Meta Ai.

Pessoalmente, vejo esses consistentes equívocos como uma forma de priorizar a estética superficial acima do contexto narrativo. Na publicidade e no mundo do design, o visual pode atrair o olhar das pessoas, mas é a história por trás de tudo que constrói a confiança.

Com esse comercial, dá para ver que o Meta Ai não sabe do que está falando e não acredito que vai conseguir persuadir um público que está cada vez mais cético com esse futuro promissor alimentado por Ai que as empresas de tecnologia querem oferecer.

Apostando nas pessoas, ignorando a letra: a ironia sombria por trás da campanha de otimismo do Meta AI

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