No mundo das belas artes e do design, não são muitos os artistas que conseguem balancear o frio dos materiais industriais com a natureza passageira na memória humana da forma com a qual Anneke Eussen faz. Residente em Vaals, na Holanda, a artista desenvolveu uma linguagem visual particular que, para mim, acaba falando sobre a durabilidade dos objetos.
Ao observar seu portfólio, a impressão que tenho é que seu trabalho é focado em explorar como os restos descartados por todos podem ser reaproveitados para revelar suas camadas de tempo e de valor. Tudo isso levando esses objetos a algo além da estética.



A origem do interesse de Anneke Eussen pelo vidro parece bem pessoal e começou sob a influência indireta de sua família. Foi explorando instalações comerciais abandonadas por seu pai e seu avô que ela construiu suas primeiras obras usando pedaços de vidro que permaneceram intocados por décadas. Foi assim que ela acordou um interesse em como ambientes acabam sendo construídos com o passado, o presente e o futuro.
Para Anneke Eussen, de certa forma, o vidro acaba sendo um meio singular que combina o vivo e o inanimado. Mesmo sendo feito industrialmente, o vidro se comporta de forma orgânica. Quando ele quebra, suas partes se formam descontroladamente e o resultado não vem com intenção. Trabalhando com essas rupturas, Anneke Eussen destaca a tensão entre a tentativa de ordem humana e o caos que a natureza traz.


Visualmente falando, o trabalho de Anneke Eussen acaba por me lembrar colagens, mas a artista quer criar uma distinção aqui. Afinal, suas composições dependem da transparência e da sobreposição das camadas do vidro. E mesmo com lâminas mais finas, essa sobreposição introduz uma terceira dimensão que é difícil de apresentar em outros materiais.
É por meio do manuseio de restos industriais que Anneke Eussen nos convida a olhar objetos descartados com um novo olhar, provando assim que até mesmo um fragmento quebrado de vidro pode conter uma energia difícil de se esgotar.



Ah, descobri o trabalho de Anneke Eussen no Collé.