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Desista

Texto de um redator desiludido

Desista.

Se não gostou do título, desista. Quem foi que disse que não se compra
um livro pela capa? Ou que não se lê um texto pelo título? Bom, se não
desistiu, ainda é tempo. Ou quem sabe mais pra frente. Desista. Vou
repetir muito essa palavra nesse texto. Meu intuito, no final das
contas, é fazer com que você desista.

Desista.

Então, você quer trabalhar com publicidade? Desista. Todos os anos,
milhares de pessoas como você tentam entrar no maravilhoso e glamuroso
mundo da publicidade. Eu disse milhares, percebeu? São pessoas que,
como você, odeiam números (não poderiam nunca ser engenheiros,
matemáticos, astrônomos, físicos nucleares, vendedores de título de
capitalização), desmaiam quando vêem sangue (fazer medicina,
veterinária, enfermagem ou virar açougueiro, nem pensar) odeiam
estudar demais (direito, administração, economia, e qualquer outra
profissão que exija um mínimo de esforço ou um teste para se formar
estão fora de questão) e querem ganhar dinheiro rapidamente sem
trabalhar demais. Desista. Como eu já disse, são milhares de folgados
como você. Talvez com um pouco de esforço, você se torne um caolho
numa terra de cegos, mas isso nunca fará de você um rei. Desista. Se
você escolheu publicidade como sua profissão, deve ser de uma família
relativamente estabilizada na vida e pode ser sustentado pelo papai
até os 30. E um dia quem sabe, até virar herdeiro. Mais fácil, não?
Desista.

Você acha que tem o dom, muito jeito pra coisa? Desista.

Bom, se você não se abalou com aqueles pseudo-insultos do primeiro
trecho do texto e continua a ler, parabéns. Há outros motivos para
desistir. Vamos falar das possibilidades por exemplo. O mercado
publicitário é um ovo. De codorna. Não pelos seus atributos viris, mas
sim pela dimensão. Se pensarmos que a maior agência do Brasil não
suporta mais de 300 funcionários (contando com os seguranças,
copeiras, ascensoristas, pessoal do administrativo e financeiro, mídia
e todas aquelas áreas que não servem pra nada), já podemos ter uma
idéia de como vagas são mais raras do que neurônios em cabeça de
cliente. Claro, existem muitas agências pequenas, mas nessas, quem
quer trabalhar? Todo mundo quer trabalhar na criação da Almap, ou da
DM9, ou de uma agência que valha a pena. Eu nunca ouvi alguém me dizer
que entrou na faculdade de publicidade por que sonhava em ser mídia da
J. Cocco. Enfim, as vagas são pouquíssimas e dificilmente você vai
conseguir chegar perto de qualquer coisa que possa parecer um sonho de
emprego. Talvez nem mesmo de um pesadelo. Desista. Na Volkswagen
trabalham mais de 20.000 pessoas, lá deve ter uma vaga pra você.

Você tem talento. Não é um folgado. É batalhador. Desista.

Vamos supor que você ainda não tenha desistido de ler este texto e até
consiga um estágio numa agência. Por méritos próprios, claro. Porque
se você conseguiu entrar porque é filho/parente/vizinho/amigo de
alguém da agência ou do cliente, desista. Isso pode até te colocar lá
dentro, mas só vai fazer com que você tenha uma vida lastimável.
Ninguém gosta de “peixe”. Mesmo que você mereça ou seja competente,
sempre será visto como alguém que precisa de um pistolão pra conseguir
o que quer e nunca será respeitado. Se era assim que pensava em
entrar, desista. Voltando ao exemplo do pobre sofredor que, por
méritos próprios, conseguiu entrar numa agência interessante, até que
grande, com contas boas. Aproveite e faça amigos. Afinal, depois de um
ano como estagiário (esqueça, você não vai ser efetivado) é só o que
você vai conseguir por lá.

Emprego, dinheiro, promoção.desista. A realidade das grandes agências
é mundialmente complicada. Pro diretor de criação da BBDO de Kuala
Lumpur contratar um estagiário, mesmo que ele seja o ó do borogodó,
ele tem que pedir autorização para o Diretor de Criação da BBDO Ásia,
que vai pedir autorização para o Diretor Financeiro da BBDO Ásia, que
vai pedir autorização para o Diretor Mundial de Operações da BBDO, que
vai mandar um fax para o Diretor Financeiro da Omnicom que vai colocar
o fax em cima da mesa do Presidente Mundial da Omnicom, que, ao ler
aquele fax vai colocar junto com os outros todos pedidos de efetivação
ou contratação de gente numa pasta e depois vai mandar um e-mail para
todos os funcionários do grupo Omnicom, que controla a BBDO, a DDB e
outras tantas, dizendo que “estamos num momento de crise mundial e que
nenhum funcionário deve ser contratado sem a prévia autorização
pessoal dele e que o ideal seria que os quadros fossem reduzidos em
20%. E que os lucros crescessem pelo menos 15%.” Sem comentários.
Desista.

Criar campanhas, defender marcas, promover cases de comunicação.
Desista.

Embora queira pular no meu pescoço por eu ser um derrotista, um
pessimista, um recalcado que nunca conseguiu trabalhar na criação da
Almap (onde você também não vai conseguir), você ainda continua a ler.
Acho bom, pois eu ainda tenho argumentos para fazer com que você não
perca tempo (como o que está perdendo agora lendo esse texto) e
desista. Vou deixar de dar minha humilde opinião para deixar que você
mesmo chegue às suas conclusões. Só peço que você se faça uma
pergunta: por que diabos você quer trabalhar com publicidade?

Dinheiro? Desista. Foi-se o tempo em que se ganhavam salários
fabulosos nesse mercado. O mais provável é que você talvez chegue na
casa dos R$ 1.500 mensais (sendo muitíssimo otimista) e por lá fique o
resto da vida. É mais provável ganhar dinheiro com aquelas propostas
que dizem “Ganhe dinheiro a partir de casa” do que com publicidade.

Fama? Sucesso? Desista. Pergunte para qualquer pessoa normal se ela
conhece algum publicitário. Talvez ela cite o Olivetto, ou o Nizan, no
máximo o Roberto Justus. Marcello Serpa? Nunca ouviu falar.
Publicitário só é famoso no meio. Não me parece que ser conhecido por
um número de pessoas que não encheriam o estádio do Capiberibense de
Mossoró seja o ideal de alguém que queira ser famoso. Realização
profissional? Essa é a mais engraçada. Desista correndo. Trabalhar com
publicidade é das coisas menos interessantes e relevantes que existem.
O que as pessoas fazem quando vêem TV e começam a passar os
comerciais? Trocam de canal. O que fazem na revista quando vêem um
anúncio? Viram a página. Outdoor vá lá, parado no trânsito a gente até
vê. Mas porque é obrigado, não porque quer. É um trabalho que só é
importante pra quem faz. Nem quem aprova e paga aquilo liga de verdade
pra isso. Os clientes (por si só, um dos maiores motivos pra se
desistir de pensar em trabalhar com publicidade) fazem de tudo para
que os anúncios sejam cada vez menos interessantes e relevantes. Isso
porque a vida deles gira em torno de um sabonete, de um cigarro, de um
carro. É, existem coisas menos interessantes pra se fazer do que
trabalhar em agência. Ser cliente é muito mais estúpido. Já pensou
poder contar pros seus netos que durante dez anos da sua vida você só
falou de sabonete?

Prêmios? Claro, aí tenho que dar o braço a torcer. Quem é que não quer
ganhar uma estátua dourada breguíssima com a cabeça de um leão que nem
pra segurar livros serve? Experimente dizer pra alguém que não conhece
publicidade que você já ganhou dez leões em Cannes. Provavelmente a
pessoa, depois de tentar entender porque diabos você está falando com
ela, vai dizer. “Coitado, dão muito trabalho? Manda pro zoológico.”.
São prêmios inúteis, que são bem um reflexo da profissão. Já pensou se
um cientista ganhasse o prêmio Nobel com uma pesquisa que não deu
certo, mas que se desse, seria ótima? Uma pesquisa fantasma? Ou um
ator que ganhou o Oscar por um filme que não foi rodado, mas que se
fosse, seria fantástico? São prêmios e mais prêmios, todos pra tentar
fazer com que as pessoas que trabalham com isso achem que, afinal de
contas, não são tão inúteis. É a famosa terapia do auto-engano. Fazer
a diferença? Desista. Um médico faz a diferença. Salva vidas, cura se
for bom, mata se for mal. Um engenheiro, um arquiteto, ao construírem
uma casa, um edifício, seja lindo, seja horroroso, fique de pé ou
caia, fazem a diferença. São coisas palpáveis. Úteis. Necessárias. Uma
professora faz a diferença. Um gari. Um flanelinha. Uma puta. Todos
podem um dia dizer que o que fizeram, fez a diferença. Um
publicitário.nem com muito esforço. É a profissão mais inútil que
existe (depois de ser cliente, mas entramos no mesmo círculo de
inutilidades). Há 100 anos não existia a praga do marketing e ninguém
sentia falta. Se amanhã um vírus mortal que se espalha através de
layouts matar 99% da população de publicitários do mundo sabe o que
acontece? Nada. Ninguém vai sentir falta. O mundo vai até ficar mais
bonito e divertido sem aquela poluição visual toda e sem aquelas
coisas chatas entre os programas de TV e notícias de jornal.

Bom, você continua lendo. É, eu não imaginava outra coisa de alguém
que não tem nada melhor pra fazer da vida e vai tentar fazer carreira
em publicidade. Mas você deve estar se perguntando (ou não, mas sabe
como é, publicitário adora achar que pensa que sabe o que os outros
pensam): se eu acredito em tudo isso que eu escrevi, porque é que EU
não desisto? E quem foi que disse não? Eu desisti. Só que eu demorei
anos pra perceber aquilo que, espero, você tenha percebido só lendo
esse monte de besteiras que eu escrevi. Mas como você é muito esperto
e sabe que com você vai ser diferente, boa sorte. Eu vou aproveitar
minha vida. Espero que daqui a alguns anos você possa aproveitar a
sua.

Davi Amarante
Ex-Supervisor Criativo
Ex-Edson, FCB – Lisboa

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